By Val =)
É um livro de cunho estudantil que desmistifica toda a visão de obscurantismo que caracteriza o período medievo e discute minuciosamente o discurso historiográfico sobre a longa duração da Idade Média. O livro faz parte da coleção "Explicado aos meus filhos" (link), que traz também outras temáticas da História no estímulo de descomplicar o que ainda se encontra complicado.
LE GOFF, Jacques. A Idade Média explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2007.

A Idade Média explicada aos meus filhos é um livro didático destinado aos jovens, no qual sua persuasão se destaca pelas características da influência da Idade Média nos dias atuais, não apenas dando ênfase ao que todos estão acostumados ler e ver sobre a época medieval. Seu título já nos remota a ideia de simplicidade e objetividade em sua narrativa. Assim como um pai deve ser objetivo e leve no diálogo com seu filho, assim é Le Goff para com seus leitores. Organizado como um diálogo, o livro se pronuncia numa relação historiográfica cuja história se constrói através de perguntas e respostas; exato e sucinto é um livro que se lê ininterruptamente.
Le Goff questiona a mentalidade atual sobre a Idade Média, problematizando a suposta duração de 1000 anos desse período, no qual coloca em questão as divisões cronológicas da História argumentando que nem sempre por um determinado fato histórico ocorre uma ruptura. A temática proposta pelo livro engloba os principais aspectos que constituem o imaginário da sociedade contemporânea; sua capa – a ilustração de um cavaleiro em seu cavalo- já nos denuncia características de seu conteúdo, nos relembrando as circunstâncias que construiu o imaginário ocidental (padres, cavaleiros, damas, fadas, dragões). O autor também especifica os pormenores da religiosidade medieval, das ideias heréticas, anjos e os demônios da espiritualidade cristã, ou seja, toda a constituição da Europa cultural, a união europeia e seu advento.
Partindo desse pressuposto, Le Goff nos obriga a elaborar uma narrativa explicativa sobre a longa duração do mundo medievo, pois é o que em especial descreve sua obra, assim assinalando o questionamento imposto pelo autor, e todas as inspirações que levou a era medieval a se consolidar através de filmes, desenhos entre outras alegorias.
No primeiro capítulo, o autor trabalha sobre a “Longa Duração” principiando uma indagação em relação a duração do período. Com um subtítulo intitulado A Idade Média “boa” e a “má”, Le Goff articula a interpretação obscura do mundo medieval atrelada a essa ruptura calcada pela “era moderna”, pois é assim que é subentendida a reforma causada pelo “Renascimento”, no qual os humanistas e iluministas tentaram passar a ideia de uma época obscurantista e triste, logo, o autor não nega sua obscuridade, mas evidencia que em relação a Antiguidade o período teve muitos desenvolvimentos significativos e é considerado o momento do nascimento da Europa. O mesmo defende sua perpetuidade até o século XVIII. Até o século XVIII, pois é somente nessa era que a “Revolução Industrial” divide as águas que propiciariam uma nova “divisão historiográfica”, logo, somente a mesma com sua revolução das máquinas, acabaria com o “Antigo Regime” e o sistema “feudal” que caracterizou a Idade Média como “má”. Le Goff evidencia que o nome (“Média”) dado ao período que periodicamente vai de “1000 a 1500”, também é uma relação de não aceitação de sua durabilidade.
“Resumindo, a Idade “Média” é aquela que se estende entre dois períodos que são tidos como superiores: a Antiguidade e os Tempos Modernos, que começam com o Renascimento - uma palavra também particular, a Antiguidade “renasce”, a partir dos séculos XV e XVI, como se a Idade Média fosse um parêntese!” [p. 17]
No terceiro capítulo, fica evidente essa ideia no trecho em que o autor descreve as catedrais e os castelos fortificados. Le Goff elucida que as artes bárbaras encontradas nas catedrais foram intituladas de “góticas”, principalmente no Renascimento (propulsor da era moderna); a arte românica que caracterizava a Igreja por volta do século XII, também evidencia que o mundo medievo não manteve uma total ruptura com a Antiguidade, valendo-se valorizar a Antiguidade Clássica (ideal da renascença em reviver aspectos greco-romanos).
No quinto capítulo, o objetivo de Le Goff é mostrar toda essa relação de poder que fez com que em meados dos séculos XIII e XIV o rei juntamente com a gama de homens que o cercava, deu início a uma nação considerada como entidade que tem um governo e administração particulares, o que hoje intitulamos de Estado. Vale salientar, que a formação dos Estados Nacionais é características atribuídas a era “Moderna”, mas seu advento tem e muito atribuição ao período medieval. Outro fator que o autor coloca em evidência articulado no processo de longa duração.
Após estabelecer uma narrativa sobre as ações religiosas no mundo medieval, Le Goff no oitavo e último capítulo, especifica as artes e as letras, o saber e o ensino, a festa. A Idade Média interrompida pelos ideais renascentistas e caracterizada como obscurantista, também havia a instrução, o saber, e o estudo. Por isso Le Goff aborda em todo o livro a Idade Média “boa” e a “má, pois a época, apesar de muitas guerras, pestes, manipulação da Igreja, era também um período cultural. O autor demonstra gostar dessas manifestações das artes, pois, como ele mesmo elucida, a ciência e as artes tornam-se cada vez mais independentes, “...libertam-se cada vez mais da influência da religião” (pág. 102). Vale ressaltar que o mundo medievo já fora caracterizado por um Renascimento, o Carolíngio e toda essa síntese abordada por Le Goff, nos remota todo um advento medieval nas manifestações Modernas, pois a Idade Média já vinha propondo sua reforma social.
Olá Val, publiquei seu comentário lá no PC@maral e vim retribuir sua visita. Já estou seguindo seu blog também.
ResponderExcluirQue Deus te abençoe!